Dentro de uma casa, em frente a uma janela. Vê-se um radiador de aquecimento central. Paredes em tons quentes. Madeira. Conforto.
Lá fora está frio, vento. Há pingos de chuva (não muitos) que deslizam lentamente, a espaços, no vidro. Um som, apenas, de madeira a estalar. Um plátano enorme domina o jardim em frente, o chão coberto com folhas douradas, castanhas. Algumas esvoaçam, outras estão coladas aos chão pela chuva.
O plano surge desde o interior da casa, confortável, para as costas do homem e avança para fora, para o frio, mas vê-se a janela.
Um gesto lento, imperceptível, do braço do homem que abre a janela.
Ouve-se o silvo súbito do ar frio que entra. Que acorda, dói, por dentro. Vê-se o incómodo, que no entanto é bem vindo.
De súbito, o homem começa a desfazer-se, e sai, pela janela aberta, num fio de poeira, de fumo. Que se condensa nas gotas de chuva, que se junta a umas folhas que rodopiam.
O homem continua a desaparecer, inexoravelmente.
Não resta mais nada. Ouvem-se passos, vindo de dentro da casa, que se aproximam da sala.