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Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota…
Crepite, em derredor, o mar de Agosto…
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito…

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão Ferreira

Marginal

“Ser marginal. Não ser fora-da-lei por desprezo da norma comum. Por amoralidade, miserabilismo, ou abjecção. Ser apenas do lado da vida em que não passa muita gente, se é quase anónimo, fora do alvo que é visado pela notoriedade, curiosidade pública, grande reputação. Ser em humildade, na discrição de nós, na curta dimensão de nós. Não é por comodismo, orgulhosa modéstia, ressentimento. Não por nada disso ou outras coisas disso, mas só para nos não perdermos de nós, não nos esbanjarmos na invasão da dissipação alheia. Não por nada disso mas só pela economia do pouco que nos pertence e mal dá para abastecer uma vida. Ser marginal – sê marginal. Afecta a ti próprio o espaço que é para ti e para ti te foi dado. Na intimidade de ti, na reserva de ti, na pobreza de ti. O mais que viesse e te invadisse o teu espaço, que é que te dava? A ampliação do teu rumor na amplificação alheia dele, seria alheio e não teu. A tua voz é breve, não a amplies ao que não é. E o teu pensar, o teu sentir, o teu ser. Não os sejas mais do que és. E então verdadeiramente serás.“

Vergílio Ferreira, in ‘Conta-Corrente IV’

uma paisagem verde. estás comigo.
- “preciso de espaço”
o plano sobe, gradualmente. desaparece tudo, dando lugar a um branco luminoso, apenas com um ponto negro longíquo.

a noite na cidade. luzes. o passeio empedrado. dois sons distintos de passos.
- “preciso de espaço”
o plano sobe, gradualmente. desaparece tudo, dando lugar a um branco luminoso, apenas com um ponto negro longíquo.

um quarto. velas. o teu perfil na penumbra
- “preciso de espaço”
o plano sobe, gradualmente. desaparece tudo, dando lugar a um branco luminoso, apenas com um ponto negro longíquo.

o ecran do computador. texto a ser escrito numa janela.
outro texto a ser escrito noutra janela. “preciso de espaço”

o plano desfoca-se. branco. um ponto negro. vários pontos negros.

- “então? esse livro é sobre o quê?”
à porta do quarto, um homem, com calças de pijama, segura uma escova de dentes. sorri.
sobre um ombro feminino, macio, uma alça finíssima, cabelos pretos, longos. Sente-se um movimento suave debaixo de um edredon.

- “hmmm… parece o mesmo de sempre. rapaz encontra rapariga, rapaz perde rapariga. mas ainda não cheguei ao fim. quero ver como acaba”

Corpo de delito

se um dia desaparecer
e investigarem
sangue
suor
esperma
lágrimas
saliva
na tua pele,
dentro de ti
poderás sempre alegar
(e de modo convincente)
desconhecimento

“Briga entre casal na origem de explosão”

(ler em http://dn.sapo.pt/2008/01/04/cidades/briga_entre_casal_origem_explosao.html)

“(…)O DN apurou que elementos desta força policial se deslocaram ontem à tarde a pelo menos uma bomba de gasolina das imediações para saber se “uma mulher jovem e bonita” teria adquirido 1,5 litros de gasolina. Na gasolineira não souberam responder.(…)”

Numa investigação de um crime passional, um agente pergunta sobre uma “mulher jovem e bonita”.
O fantástico é que isso vai permanecer nos autos, vai poder ler-se nos inquéritos.

No tribunal, os juízes, os funcionários, a acusação, a defesa, os jornalistas, o público, eu, especados a olhar a mulher, jovem e bonita, que retoca a maquilhagem no banco dos réus.

Ninguém ousará interrompê-la.

Imagino que os olhares femininos se voltarão para o agente que inquiriu sobre ela.

“mulher jovem e bonita”…

Promoção imediata para o agente !!!

Velho Menino-Deus que me vens ver
Quando o ano passou e as dores passaram:
Sim, pedi-te o brinquedo. E queria-o ter,
Mas quando as minhas dores o desejaram…
.
Agora, outras quimeras me tentaram
Em reinos onde tu não tens poder…
Outras mãos mentirosas me acenaram
A chamar, a mostrar e a prometer…
.

Vem, apesar de tudo, se queres vir.
Vem com neve nos ombros, a sorrir
A quem nunca doiraste a solidão…
.
Mas o brinquedo… quebra-o no caminho.
O que eu chorei por ele! Era de arminho
E batia-lhe dentro um coração…

.

Miguel Torga

Manhã

hoje estive para te telefonar
penso sempre nisso antes do café
mas depois a chávena,
e o pacote de açucar,
e o dia fica,
como todos os outros.

às vezes espero pela tua voz, que me telefones
não sei como o farias
há 2 anos que mudei de número
e não te disse, mas não faz mal
porque falo muito contigo, mesmo sem o saberes
enquanto passeio, fumando poemas,
como os que te escrevia
ou os que escreveram para nós, parecia
queria mostrar-te os momentos, e pedaços do que te disse,
não sei se estão todos, eram tantos,
guardo-os como maços de papéis, sempre a cair.
não te preocupes, eu apanho-os e arrumo-os.
as pessoas olham para mim,
mas não ligo, porque estou a falar contigo
e tenho medo de me esquecer de alguma palavra
ainda as tenho todas, creio
preciso de te as dizer, uma a uma, entre beijos, antes do pôr-do-sol.

como agora, quando queria telefonar-te para te dizer bom dia.
era isso, já me lembro.
queria dizer-te que hoje não vou chegar tarde,
que ainda vamos aproveitar para passear e dar as mãos, antes do jantar.
comentar, cheio de graça, o que estavas a dizer,
ouvir-te rir alto.
mas pensei no silêncio que se segue.
e o dia fica,
como todos os outros.

ainda ninguém chegou.
tenho, talvez, meia hora de mim mesmo,
meia hora antes de ficar sózinho.
depois o dia fica,
como todos os outros.

Madrugada

acordo. cedo demais.
a luz azul de Sirius espalha-se, suave, na janela.
queria-te aqui mais um pouco, acredito que ficarás
se a luz do sol iluminar o teu primeiro gesto,
se esse gesto for um sorriso
como agora, enquanto dormes
afasto-me enquanto te voltas e enches o quarto com a tua sombra
não ouso sequer tocar no teu cabelo, que antes agarrei com força
abraço-me em concha para guardar os teus gritos, o cheiro da tua seiva,
beijo-me para sentir ainda os teus lábios na minha pele
fecho os olhos para me impedir de te acordar, de quebrar
e velo-te,
em silêncio,
e espero
que a luz azul de Sirius te faça ficar mais um pouco
tenho medo de adormecer e não ver o teu primeiro gesto
e esse gesto ser um sorriso
acredito que seria assim, se estivesses aqui…
lá fora, o silêncio, o ladrar irritante de um cão
o ruído de uma garrafa na pedra irregular do passeio
a luz azul de Sirius, do lado de fora da janela.
e é tudo, creio.

Preciso de espaço

Início da noite

lembro-me que tínhamos fome havia três dias
encostada ao mármore da mesa-de-cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro
a escuridão não era só exterior
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo
caminhámos pela cidade
eu metia as mãos nas algibeiras
onde tacteava tudo o que guardara e possuía
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas
sentia-me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim
gesticulava para me dizer que estávamos vivos
e apaixonados

Al Berto (Carta da Flor do Sol – excerto)

Fim de tarde

corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
porque amo
ouvir-te perguntar quem fala ?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer-te
apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão
mas não podia reconhecer-te
sim
correr a cidade procurar-te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses
mesmo que me dissesses coisas que me
mesmo que
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar-me

Al Berto (Carta da Flor do Sol – excerto)

Marca na água

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este foi provavelmente o dia em que mais escrevi na água.

agora afasto-me, devagar, silencioso. fica apenas a marca na água calma, uma neblina suave, fria, cobre-a. o que espero? que um dia, passos, sobre as folhas caídas, façam estremecer o lago e a marca desapareça. nesse dia, mas só nesse dia, se saberá que nunca foi precisa.

Carta

Espero sempre pela próxima como se fosses o mar.

Como isto, que  não sei se e quando vais ler… se fores como eu, a cada 10 segundos ou então de ano a ano.

Está perto o dia em que te vi pela primeira vez. Deve ter sido ontem, porque basta saber algo de ti para começar a tremer por todos os lados, é impossível disfarçar.

Apetece-me maçar-me contigo. Apetece-me não dizer nada e estar ao teu lado. Apetece-me ver um filme contigo e passar as próximas 2 horas a discordar de ti (e secretamente embalar-me no teu discurso).

Apetece-me fechar os olhos e sentir o teu cheiro como se fosse a calma antes da tempestade que se vai seguir… e de te ouvir dizer “é tão bom”.

Apetece-me imaginar que quando morrer estou a segurar as tuas mãos.

Já não digo muito, sem ti por perto não há muito para dizer.

Plano de 30 minutos

Ao fim da tarde, um casal num carro, com alguns sacos de viagem no banco de trás.

Estrada pouco movimentada. Verde, verde e mais verde. Casas espaçadas. Bucolismo.

Passagem de planos entre a paisagem e os ocupantes que permanecem silenciosos. Ocasionalmente, um olha para o outro, mas nunca os olhares se cruzam.

(nota : plano(s) demorado(s), no início a paisagem, para o fim ênfase nos rostos e olhares, interrogativos, expectantes do casal – tensão silenciosa, apenas sinais)

O condutor diz “Sabes no que estou a pensar?”

Ela, silenciosa, apenas com um olhar de interrogação perante a pergunta.

“Se souberes diz-me, porque eu não sei”

Esfumar-se

Dentro de uma casa, em frente a uma janela. Vê-se um radiador de aquecimento central. Paredes em tons quentes. Madeira. Conforto.

Lá fora está frio, vento. Há pingos de chuva (não muitos) que deslizam lentamente, a espaços, no vidro. Um som, apenas, de madeira a estalar. Um plátano enorme domina o jardim em frente, o chão coberto com folhas douradas, castanhas. Algumas esvoaçam, outras estão coladas aos chão pela chuva.

O plano surge desde o interior da casa, confortável, para as costas do homem e avança para fora, para o frio, mas vê-se a janela.

Um gesto lento, imperceptível, do braço do homem que abre a janela.

Ouve-se o silvo súbito do ar frio que entra. Que acorda, dói, por dentro. Vê-se o incómodo, que no entanto é bem vindo.

De súbito, o homem começa a desfazer-se, e sai, pela janela aberta, num fio de poeira, de fumo. Que se condensa nas gotas de chuva, que se junta a umas folhas que rodopiam.

O homem continua a desaparecer, inexoravelmente.

Não resta mais nada. Ouvem-se passos, vindo de dentro da casa, que se aproximam da sala.

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